Como o chamado voto envergonhado pode influenciar as eleições

 

Em um cenário político cada vez mais polarizado, muitos eleitores preferem não revelar em quem pretendem votar. Conhecido como “voto envergonhado”, o fenômeno ocorre quando a pessoa omite sua preferência eleitoral por medo de críticas, constrangimentos ou até de sofrer algum tipo de violência em razão de sua posição política.

Segundo o cientista político Pedro Pietrafesa, as motivações variam de acordo com o contexto em que o eleitor está inserido. “Tem diferentes motivos. Algumas pessoas têm receio de sofrer algum tipo de violência física e, por isso, não externalizam sua preferência. Outras percebem que o candidato que apoiam é minoritário no grupo em que convivem e acabam escondendo o voto para evitar vergonha ou chacota”, explica.

O voto envergonhado foi identificado pela primeira vez nos Estados Unidos, na década de 1960, e ganhou destaque nas eleições presidenciais americanas de 2016. No Brasil, o comportamento também passou a ser observado em pleitos recentes, especialmente nas disputas presidenciais de 2018 e 2022.

“Os institutos de pesquisa já tentam identificar esse comportamento. O voto envergonhado foi observado nas últimas eleições presidenciais brasileiras e também pode ser verificado agora em 2026.” De acordo com o especialista, o receio de expor a preferência política continua presente entre eleitores de diferentes espectros ideológicos.

“Em 2022, algumas pessoas não diziam que votariam no Lula por medo de sofrer algum tipo de violência. Da mesma forma, havia eleitores do Bolsonaro que também preferiam não declarar seu voto, dependendo do ambiente em que estavam”, comenta o especialista.

Impacto nas pesquisas e nas relações sociais

Além de dificultar a medição das intenções de voto pelos institutos de pesquisa, o voto envergonhado também afeta o convívio social durante o período eleitoral. “Isso tem impacto nas nossas relações sociais. Muitas vezes, as pessoas deixam de frequentar determinados ambientes ou evitam conviver com algumas pessoas por causa das manifestações políticas. A decisão de revelar ou esconder uma preferência eleitoral acaba influenciando o cotidiano, as relações familiares e até os resultados das pesquisas.”

O voto envergonhado também está diretamente relacionado ao conceito da “espiral do silêncio”, teoria desenvolvida pela cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann, na década de 1960.

Segundo a teoria, quando uma pessoa percebe que sua opinião é minoritária dentro do grupo em que convive, ela tende a permanecer em silêncio para evitar isolamento, críticas ou conflitos. Esse comportamento faz com que determinadas posições pareçam menos populares do que realmente são, influenciando tanto o debate público quanto a percepção sobre a disputa eleitoral.